sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A noite caia. Mais um cigarro era pagado no cinzeiro. Já haviam sido vários aquele dia. O tempo caminhava lentamente. Provável tentativa de prolongar o sofrimento. Via tudo em camera lenta. Como se não pudesse se permitir desligar dos detalhes. Lá fora barulhos de carros. Mas dentro. Dentro apenas o silêncio. O vazio. Não queria estar ali. Era uma casa assombrada pelo passado. Tal como seu coração. Envelhecera, mas não havia conseguido se libertar. Sua alma estava almaldiçoada por aquelas paredes. Ainda não entendia. Como pudera amar tanto um lugar. Se encantar tanto. Para no fim, ver-se amaldiçoado. Preso. Queria sair correndo. Não encontrava forças. Como em sonhos, cada vez que tentava mover o pé, ele estava pesado, como se houvesse em seu tornozelo uma corrente, como de um prisioneiro. Queria se libertar. Queria fugir, sair desse lugar onde havia apenas sofrimento. Mas não tinha forças. Todo dia pela manhã respirava fundo e dizia a se mesmo que naquele dia teria forças suficientes. Todos os dias ao fim da tarde. Estava no mesmo lugar. Esgotado pelas tentativas vãs. Sua persistencia esmorecia. Talvez desistisse. Talvez não. Restava o amanhã.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O dia amanheceu azul. Muito azul para quem tem um coração partido. Mas corações partidos não fazem o mundo parar de girar. Caminhei pela rua e a todo tempo vi coisas boas acontecendo. Uma avó emocionada contando ao celular como estava seu primeiro neto recém nascido. Alguém se casando, cheia de sonhos e esperança. Filhotes de cachorro começando a vida. Brincando, aguardando um novo dono.
Mas nada disso conseguiu me fazer sorrir. Nem mesmo um fraco sorriso no canto da boca. Meu coração está partido. Irremediavelmente despedaçado. Não por um amor romântico. Não por uma desilusão. Estou perdendo alguém que amo. Aos poucos vejo ele se esvair. Enfraquecer. Responder menos aos meus chamados. Apesar de me referir a ele como uma pessoa. Meu melhor amigo que morre, é um cão. Um lindo cão chamado Tico. Mas que apesar de animal. Ser silencioso, eu amo muito, às vezes julgo que até demais. Meu coração está despedaçado, pois ele não morre de velhice. Morre cedo, e aos poucos. Há dias não preenche mais a casa com seus latidos, com seu jeito de chamar a atenção empurrando as coisas com o focinho ou chorando baixo pedindo a bolinha. Esta numa clínica. Sozinho. Logo ele que foi minha maior companhia. Ele que nunca me deixava chorar. Hoje não resisti. Chorei com ele. Mas ele já está muito fraco. Até mesmo para me fazer parar de chorar. Enquanto o alimentava com uma seringa, vi em seus olhos a mesma expressão de quando eu o vi pela primeira vez. Quando me apaixonei perdidamente por aquela pequena criatura, meio desengonçada, meio desproporcional. Para alguns ele era mestiço. Não me importava. Quando ele me pediu colo pela primeira vez não resisti. Ele já ganhara meu coração. Desde seus primeiros dias ele deu muito trabalho. Era milhões de pulgas, pata machucada, otite crônica. Mas todo o trabalho sempre foi recompensado com o amor. Com a felicidade que ele sempre proporcionou tanto a mim quanto a todos os outros da minha casa. Na verdade ninguém conseguiu resistir aos encantos dele.
Um cachorro tão manso que eu nunca sequer imaginei que pudesse me morder ou a qualquer outro.
Hoje ele não está aqui. E as lágrimas caem, sem que ele as faça parar. Meu coração está como já disse irremediavelmente partido. Como substituir um amor assim? Como amar de novo, depois de viver mesmo que um curto tempo com o melhor cachorro do mundo. Um bichinho que mesmo nos meus mais altos sonhos de ter um animal, não consegui criar uma imagem de um animal tão perfeito. E de um amor tão grande.
No fim do dia. Fazendo compras em um supermercado tocou a musica All we need is love, dos beatles. Nem sempre o amor é suficiente. Pois nem o maior amor do mundo vai ser capaz de afastar toda essa dor. Ou salvar o Tico.
Só quem amou muito um cão pode entender a dor de estar perdendo o Tico. E por fim realmente perdê-lo.

01/12/2003 - 20/10/2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009




Todas as manhãs era sempre a mesma coisa. Abria meus olhos. Mas não me movia na cama. Ficava quieta, apenas ouvindo os barulhos da casa. Em menos de um minuto ouvia seus passos lentos no assoalho do corredor. Permanecia quieta. Às vezes até fechava os olhos e fingia dormir. Mas ele já sabia que eu estava acordada. Em menos de um minuto lá estava ele, com o focinho me empurrando e o rabo batendo na cama. Um choro doce me pedia atenção, carinho.
- Oi Tico....
Com muitos beijos e carinhos, meu dia começava.
Chegar em casa era sempre uma festa. Sempre corria pra me receber. Sempre fazendo festa. Às vezes quando chegava de madrugada e ele estava dormindo profundamente a festa era só o barulho do rabo batendo em algum lugar da casa... Festa com preguiça.
Chorar era algo impossível, bastava as primeiras lágrimas começarem a aflorar e lá estava o Tico, desesperado, latindo, me focinhando, fazendo de tudo para me distrair e fazer com que eu parasse de chorar.
Hoje ele não tá aqui. E as lágrimas caem, sem que ele as faça parar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009



A grande ironia de Rodin, o instante antes do beijo. Condenados a eternidade da não consumação. Talvez isso seja o amor...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Não sabia quanto tempo tinha ficado sentada ali, observando a fonte. Ela havia sido desligada há alguns minutos, mas gotas teimosas pingavam... cada vez menos. Como o final da areia de uma ampulheta. Isso a lembrou que o tempo se esgotava. Já esperara tempo demais por alguém que não viria. Já sabia. Sabia-o antes mesmo de sair para o encontro. Mas tinha uma esperança, que no fundo era apenas a esperança de não desistir. Mas sabia que apenas lutava contra a realidade. Sabia que essa esperança era apenas fechar os olhos para a verdade. Ela não iria chorar. Não se arrependia de ter tentado. De ter se permitido a esperança. Era apenas uma escolha. Para muitos era isso, escolhas. Mas qualquer outra possibilidade, não tentar, desistir, não lhe ocorrera. Apenas isso.
Se levantou. Sorriu para si mesma. Satisfeita. Ela tentara, não dependia mais dela. Escapava-lhe. Com passos lentos, porém leves, aliviados. Foi embora. Começava um novo caminho.
A fonte parou de gotejar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

Decorei este soneto, durante um amor adolescente. O declamava a todos os cantos. Estava acometida pelo amor. Encantada. Quando o amor findou, o repudiei, bem como todas as lembranças e sonhos. Julgava-o esquecido, perdido nas desilusões. Então primeiro um sonho. Nele me liberto do medo. Esqueço a desilusão. Abando as amarras do passado e aceito caminhar com os pés descalços. Hoje, sem esperar, o soneto retonou também. Tão claro como na primeira vez que o declamei ao meu antigo amor. Não acredito que eu estaja tentando desenterrar mortos. Pelo o contrário. Acho que enfim me liberto. Exorciso um fantasma. É o início da primavera. O recomeço.

domingo, 20 de setembro de 2009

Oscar Wilde
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo
qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho
questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus
de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há
de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e
peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma
exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior
alegria

Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade
seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a
fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no
rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios,
crianças e velhos, nunca me esquecerei de que
"normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."